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sexta-feira, 17 de abril de 2026

O CAMINHO ESCORREGADIO DA PATRISTICA

 O CAMINHO ESCORREGADIO DA PATRISTICA

 

 


C. J. Jacinto

 

 

Na obra excelente obra  "Doutrinas  Centrais da Fé Cristã”  J.N.D. Kelly aborda o período patrístico no primeiro capítulo .  Nessa obra, ele é muito claro em dizer que a teologia dos primeiros séculos apresenta os extremos de imaturidade e de refinamento. Essa sem duvida deve ser a primeira percepção viva no nosso coraçao quando o assunto é ler e estudar a patrística. 

 A patrística, em sua totalidade, não pode ser considerada autoridade final em assuntos de fé e doutrina. Nenhum escritor patrístico possui a mesma autoridade das Sagradas Escrituras. Pelo contrário, quaisquer ensinamentos patrísticos que discordem das Escrituras, que apresentem inovações ou acréscimos, devem ser rejeitados. Essa é a postura que devemos adotar ao analisar a patrística. Caso contrário, incorreremos em erros e nossa fé poderá ser abalada. Alexandria, situada na foz do rio Nilo, desfrutava de uma localização geográfica estratégica, propícia ao comércio e à disseminação de ideias entre o Oriente e o Ocidente. Era um centro intelectual de grande importância, notabilizada por abrigar a maior biblioteca do mundo da época, além de diversas outras de menor porte e museus. A cidade acolheu numerosos intelectuais e, de certo modo, tornou-se um dos berços do pensamento gnóstico.
 No contexto de Alexandria, a filosofia grega exerceu notável influência sobre os intelectuais judeus. Familiarizados com as doutrinas de Platão e Aristóteles entre outros tantos, eles reconheceram, com surpresa e admiração, semelhanças entre os ensinamentos filosóficos gregos  e os textos sagrados do Antigo Testamento. Concluíram, então, que os filósofos gregos teriam derivado dos livros de Moisés as suas mais notáveis ideias. Quando na verdade eles beberam das fontes poluída ocultistas das religiões egípcios.  A noção de que os filósofos gregos, posteriormente reverenciados em Alexandria, em especial por judeus influenciados pela cultura local, teriam recebido influência direta de Moisés, configurou-se como uma estratégia, um atrativo para o sincretismo que se manifestaria de forma proeminente naquela cidade.
As ideias fundamentais que emanaram dos ensinamentos de Filo de Alexandria e da filosofia resultante desse sincretismo, conhecida como escola alexandrina, exerceram notável influência. Essa influência, perceptível em diversas épocas, moldou profundamente a teologia da  cristandade, inclusive ate nos tempos atuais.
Desse sincretismo religioso emergiram novas abordagens para a interpretação das escrituras. Entre estas, destaca-se a interpretação alegórica, que o Dr Aníbal Pereira Reis  denominou de "exegese fantasmagórica", originada na escola judaica de Alexandria. Essa forma de interpretação exerceu uma influência considerável sobre a teologia cristã posterior, disseminando-se amplamente.

 A Escola de Alexandria caracterizou-se pela tentativa de conciliar as ideias do Antigo Testamento com as filosofias  presentes em Alexandria, notadamente a filosofia helenística. A busca por essa harmonia, no entanto, frequentemente implicava na reinterpretação do sentido literal das Escrituras, especialmente dos livros de Moisés. Para viabilizar essa conciliação, recorria-se a uma interpretação alegórica, com certa flexibilidade hermenêutica, visando harmonizar os pensamentos de Platão, Aristóteles e outros filósofos gregos com os ensinamentos do Pentateuco e outros livros do Antigo Testamento. Dessa forma, o método de interpretação alegórica das Escrituras, originado em Alexandria e exemplificado pelas abordagens de Aristóbulo e Filo, tornou-se a ferramenta hermenêutica empregada por muitos pais da Igreja. Em consequência, a teologia posterior  que se fundamentava nos escritos de Paulo e outros autores do Novo Testamento, visando harmonizar o Novo Testamento com o Antigo Testamento, foi gradualmente substituída pela interpretação alegórica, que promovia a espiritualização das Escrituras. Muitos desses pais da Igreja utilizaram tais métodos na elaboração de seus sistemas teológicos. Entre eles, destacam-se figuras influentes na teologia ocidental, tanto na Igreja Católica Romana quanto em algumas vertentes protestantes. Exemplo disso são Agostinho, bispo de Hipona, influenciado pelo neoplatonismo, e Tomás de Aquino, que incorporou o pensamento aristotélico em sua teologia.

 Figuras religiosas proeminentes do passado enalteceram o filho de Alexandria, considerando-o um dos maiores escritores eclesiásticos da Antiguidade. Dentre aqueles que o louvaram, destaca-se o renomado Jerônimo. Outro expoente, oriundo de Alexandria, foi o célebre Eusébio. Observa-se, assim, a influência da patrística em Alexandria e a escola de interpretação alegórica que floresceu naquela região da Antiguidade, onde diversos intelectuais se dedicaram a construir um sincretismo religioso de grande impacto, unindo filosofias e conceitos religiosos do Antigo Testamento para formar uma nova escola teológica que influenciaria profundamente o pensamento da Antiguidade. Portanto, o Doutor Aníbal Pereira Reis se expressa com grande rigor. A noção de Filo sobre a dependência dos filósofos gregos no estudo de Moisés foi acolhida por Justino, Taciano, Clemente de Alexandria, Teodoreto e pela maioria dos Padres da Igreja dos cinco primeiros séculos. Em seus escritos, Ambrósio demonstra significativa influência das ideias de Filo.
 O Dr Anibal Pereira Reis sustenta que figuras  como  Atanásio Sinaiítico, datada do século VII, reconhece que a patrística está substancialmente influenciada por uma orientação filosófica considerada prejudicial. Diante disso, a confiabilidade da patrística como base para a elaboração de doutrinas torna-se questionável. Considera-se a patrística um terreno complexo, onde, embora se encontrem valiosas contribuições, também se detectam erros e uma inclinação significativa a abandonar o pensamento hebraico em favor de um pensamento sincretista e helenista, desenvolvido em Alexandria para a elaboração teológica posterior . Essa tendência, segundo a perspectiva apresentada, influenciou o desenvolvimento do tomismo a teologia de Tomás de Aquino, bem como a obra de Agostinho, que se baseou em parte no pensamento neoplatonico. Consequentemente, o pensamento desses teólogos é visto como impregnado por essa influência. Apesar disso, tanto Agostinho quanto Tomás de Aquino têm sido amplamente reverenciados como grandes pensadores e figuras influentes no cristianismo. Lamentavelmente entre evangélicos que sustentam o "Sola Scriptura" 
Atualmente, contam-se entre nós líderes que foram influenciados pelo pensamento desenvolvido em Alexandria, no Egito. Essa corrente filosófica alexandrina exerceu influência significativa nos desvios doutrinários da época. A chamada Escola Gnóstica Cristã, que se manifestou no contexto da Patrística Católica, desenvolveu-se de maneira marcante, abrindo espaço para o surgimento de novas doutrinas. Estas representavam, em grande medida, uma fusão entre o neoplatonismo e o cristianismo, podendo ter exercido considerável influência, especialmente na mística católica.

 Desde os pensadores da antiguidade, como Mestre Eckhart, até outros estudiosos posteriores, incluindo Pseudo-Dionísio, o Areopagita, que introduziu na tradição cristã, especialmente na católica, o conceito neoplatônico de mística, essa influência se fez presente em diversos místicos, tanto anteriores quanto posteriores à Reforma. Portanto, é possível observar que esses líderes alexandrinos foram mentores da escola, cujo primeiro diretor foi Panteno, sucedido por Clemente. Nessa escola e nesse pensamento, caracterizou-se um cristianismo profundamente influenciado pela filosofia helenista alexandrina, que se nutria e dependia da tradição helenista, prolífica na criação de valores intelectuais, teóricos, especulativos e metafísicos. Por meio de um dos líderes da Igreja Primitiva, chamado Orígenes, essa escola e esse pensamento geraram o primeiro sistema orgânico da teologia católica, que atualmente se encontra em grande medida dissociada das Sagradas Escrituras.

 Portanto, toda a estrutura da tradição, as revelações extrabíblicas e a formulação de novas doutrinas foram incorporadas no cristianismo primitivo devido a essa influência espiritual. Consequentemente, parte do que se denomina patrística é atualmente considerada tradição na Igreja Católica Romana e é utilizada como autoridade na definição de novas  doutrinas e o estabelecimento de heresias. Este desvio significativo tem comprometido a integridade do cristianismo neotestamentário, de modo que, em diversos aspectos, observa-se um cristianismo alterado, que, paradoxalmente, ainda almeja se autoproclamar como a igreja original. Quanta ilusão!
 A partir do Concílio de Niceia, observa-se um distanciamento gradual da Bíblia em relação à Igreja Primitiva. No Concílio de Éfeso, realizado em 431, em vez de promover a sã doutrina e um cristianismo centrado em Cristo, conforme exposto no Novo Testamento, foi inaugurada a Mariolatria, doutrina que conferiu proeminência excessiva à figura de Maria. A elevação de Maria à posição de divindade, central nos cultos marianos, é defendida por seus prelados e apoiadores sob o pretexto de piedade e veneração. Contudo, por meio dessas elaborações doutrinárias, o que se observa é a prática da adoração a Maria, como se fosse uma deusa. Mesmo que alguns desavisados neguem isso, uma simples analise de escritos de "doutores" da igreja romana como Afonso de Ligorio  e outros   se pode chegar a essa conclusão com muita facilidade.

 A separação do cristianismo bíblico persistiu. Já na Alta Idade Média, o catolicismo romano mostrava-se consideravelmente distante das Escrituras Sagradas, e ascendeu uma figura de grande relevância e centralidade na teologia católica o ja citado: Tomás de Aquino. Este, reconhecido como um dos maiores teólogos da Igreja Romana, reformulou e reinterpretou a teologia, o Novo Testamento e o cristianismo, valendo-se da filosofia e dos princípios de Aristóteles, um pensador pagão que não professava a fé no Deus biblico. Dessa forma, estabeleceu-se uma ponte que gradualmente se afastava a teologia do pensamento hebraico e do  cristianismo bíblico.
Portanto, teólogos apologéticos que buscam defender a tradição, implicitamente sugerem que a revelação do Espírito Santo é insuficiente. Ao alegar que as Escrituras, redigidas sob a inspiração divina dos apóstolos e outros autores bíblicos, são incompletas, eles postulam a necessidade de complementá-las. Argumentam que homens, não mais inspirados, mas utilizando conceitos derivados do paganismo, devam formular novas ideias para fundamentar doutrinas inéditas dentro da Igreja. Essa postura, a meu ver, é incoerente, embora seja defendida por muitos que se consideram intelectuais.

 Autores como Manley P. Hall, em sua obra "O Segredo Revelado em Todas as Eras", argumentam, com base em extensa pesquisa, que os filósofos gregos antigos derivaram suas ideias da rica tradição (Diga: ocultista) egípcia, incluindo seus sistemas de crenças, cosmologia e cosmovisão.O que  Hall sugere ė que o Egito, com seu profundo conhecimento de ocultismo, esoterismo, gnosticismo e diversas práticas religiosas obscuras, influenciou significativamente o pensamento e a filosofia  grega. Diante disso, os resultados observados contemporaneamente não causam estranheza.
Não pretendo negar o valor da patrística. Longe disso, minha intenção é ressaltar que, quando os autores cristãos antigos, dos primeiros séculos, expressam ou ensinam algo fundamentado exclusivamente nas Escrituras Sagradas, sem influências pagãs, gnósticas ou da filosofia grega, isso pode ser considerado positivo, útil e até mesmo edificante. Contudo, a patrística não deve ser equiparada às Escrituras em termos de autoridade, como se fossem textos inspirados, pois não o são. São obras sujeitas à falibilidade e contêm erros, devendo, portanto, ser lidas com cautela e não consideradas como provas definitivas para sustentar uma doutrina.
 Reconheço que diversas obras da patrística podem contribuir para a compreensão de certos aspectos e fenômenos religiosos dos primeiros séculos. Por exemplo, a obra "Contra as Heresias" de Irineu de Lyon oferece um valioso entendimento sobre a fenomenologia do gnosticismo do primeiro século. Contudo, é importante ressaltar que Irineu de Lyon não foi inspirado pelo Espírito Santo e sua autoridade não se equipara à das Escrituras.
 Ao analisarmos a religião egípcia, percebemos um embrião do espiritismo e do ocultismo inserido em sua cosmovisão. Adentrando a obra "O Cuidado Devido aos Mortos", de Santo Agostinho, publicada pelas Edições Paulinas, notamos na página 43 uma descrição das aparições de espíritos desencarnados, que se manifestam aos vivos, impedindo o sepultamento adequado de seus restos mortais. Para termos uma idéia de como essas coisas estranhas influenciaram e ganharam forma dentro do cristianismo, a autora e pesquisadora Mary Del Priore, no bem documentado livro “Do Outro Lado – A Historia do Sobrenatural no Espiritismo”  faz o seguinte comentário citando o celebre Agostinho de Hipona:

“As duas formas de encarar a relação entre vivos e mortos, subsistiram. Segundo um modelo herdado da antiguidade, os vivos deveriam cuidar de seus mortos e vice-versa. Segundo um modelo eclesiástico, definido por Santo Agostinho, o conjunto de comunidade cristã deveria rezar por seus fieis defuntos. No primeiro caso, o culto consolidava tradições velhíssimas. No segundo modelava a crença na qual apenas os santos podiam cuidar dos vivos” (Pagina 30) Del Priore foi corretíssima na analise, Agostinho apenas readaptou a crença ocultista-espiritualista pagã para se ajustar ao cristianismo, semeando assim a tradição de cultos aos mortos e posteriormente dando apoio teológico para as narrativas de espectros espirituais sob a identidade de almas de falecidos padecendo no purgatório, pedindo ajuda aos místicos católicos para se libertarem de lá.

 Essa manifestação, própria do espiritismo em sua forma inicial, é, portanto, observada e defendida  na obra de um dos mais influentes pensadores do catolicismo romano. Após  investigação sobre o fenômeno da aparição de falecidos aos vivos, sob a perspectiva espiritualista e ocultista, observei pessoalmente em minhas pesquisas que relatos de aparições e manifestações de espíritos, incluindo almas vinda supostamente do purgatório em busca de auxílio, são comuns entre místicos católicos antigos e modernos. Fenômeno paranormal que não tem qualquer respaldo bíblico, embora tenha muitas advertências nas Sagradas Escrituras acerca dessas praticas ocultistas.Essa comunicação entre os vivos e os mortos é descrita tanto no espiritismo quanto no espiritualismo, e representa uma manifestação ocultista presente no catolicismo romano, decorrente das doutrinas que o fundamentam. As concepções sobre o purgatório, em particular, apresentam raízes pagãs, vinda de teólogos apóstatas e não das Escrituras.

 A Patrística não detém autoridade para a imposição de doutrinas, especialmente aquelas que não encontram respaldo no Novo Testamento, em seus ensinamentos e definições. Inovações e novidades doutrinárias representam desvios e, embora existam autores e escritos patrísticos que possam ser úteis para a compreensão do contexto pós-apostólico, estes não possuem autoridade doutrinária, nem como tradição, nem como fonte escriturística. Se não falaram conforme os ditames do que estava escrito, nunca viram a alva da verdade, mas se envolveram com as sombras do engano. Eles não podem, portanto, definir doutrinas mas somente reforçar as que ja foram definidas pela Biblia, pois não foram inspirados pelo Espírito Santo; são apenas escritores e teologos. Muitos deles, ademais, foram influenciados pelo gnosticismo, pelo ocultismo egípcio e pela Escola de Alexandria, resultando na contaminação de muitos desses textos. Assim, o Novo Testamento e o Antigo Testamento permanecem como as únicas fontes de verdade, alicerces fundamentais que sustentam o cristianismo bíblico. (Galatas 1:8 e 9)

 

Fontes Consultadas:

O Vaticano e a Biblia – Anibal Pereira Reis –Edições Cristãs

Do Outro Lado – A Historia do Sobrenatural no Espiritismo – Mary Del Priore

O Cuidado Devido aos Mortos – Santo Agostinho – Edições Paulinas

A Fé dos Eleitos – John F. Parkinson – Editora Sã Doutrina

Doutrinas Centrais da Fé Cristã – J. N. D. Kelly – Edições Vida Nova

 

Link com um artigo interessante acerca da patrística:

https://www.wayoflife.org/database/church_fathers_a_door_to_rome.html

 

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