O livro de Jó é uma obra notável, que aborda a
reflexão perene sobre a condição humana, a natureza do homem decaído e a
atuação de Satanás. Nele, podemos encontrar valiosas perspectivas e
discernimentos sobre o mundo e sobre a situação atual da cristandade.
No primeiro capítulo, versículo primeiro, é
apresentada a figura de Jó. Habitava na terra de Uz um homem chamado Jó,
íntegro, reto, temente a Deus e que se desviava do mal. Essa descrição inicial
ressalta a integridade de Jó. Ele era um homem de fé, que acreditava na justiça
e na pessoa de Deus. Sua vida e caráter refletiam essa crença, manifestando-se
em uma conduta íntegra e piedosa, que permeava sua experiência cotidiana.
No capítulo um, versículo 6, está escrito: "Em
um dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio
também Satanás entre eles." A seguir, no versículo 7: "Então o
Senhor disse a Satanás: De onde vens? E Satanás respondeu ao Senhor e disse: De
rodear a terra e passear por ela. E disse o Senhor a Satanás: Observaste tu a
meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e
reto, temente a Deus e que se desvia do mal. Então respondeu Satanás ao Senhor
e disse: Porventura teme Jó a Deus debalde? Porventura tu não cercaste de
proteção a ele, a sua casa e a tudo quanto tem? Abençoaste a obra de suas mãos,
e o seu gado se tem multiplicado na terra; mas estende a tua mão e toca em tudo
quanto ele tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face. E disse o Senhor
a Satanás: Eis que tudo quanto ele tem está nas tuas mãos, somente contra ele
não estendas a tua mão. E Satanás saiu da presença do Senhor."
No capítulo
1, versículo 6, está registrado o seguinte: Em um dia em que os filhos de Deus
vieram apresentar-se perante o Senhor, Satanás também veio entre eles. A partir
do versículo 7, a narrativa prossegue: Então o Senhor disse a Satanás: De onde
vens? Satanás respondeu ao Senhor: De rodear a terra e passear por ela. O
Senhor então disse a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Pois ninguém há na
terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do
mal. Satanás respondeu ao Senhor: Porventura Jó teme a Deus em vão? Acaso não o
cercaste com uma cerca protetora, a ele, sua casa e tudo o que possui?
Abençoaste a obra de suas mãos, e seus rebanhos se multiplicaram na terra. Mas
estende a tua mão e toca em tudo o que ele tem, e verás se ele não te blasfema
na tua face. O Senhor disse a Satanás: Eis que tudo o que ele tem está em teu
poder, mas não toques nele. E Satanás saiu da presença do Senhor.
É evidente
que, em situações de conflito, Satanás consistentemente se opõe à verdade. Ao
analisarmos o terceiro capítulo de Gênesis, observamos a elaboração de uma
teologia distorcida e enganosa, com o objetivo de iludir Adão e Eva. De maneira
semelhante, esse comportamento do diabo se manifesta na tentação de Jesus,
conforme registrado em Lucas 4 e Mateus 4. Nesses relatos, Satanás emprega
versículos bíblicos, manipulando e deturpando o texto sagrado para justificar
uma interpretação particular, visando induzir Jesus ao pecado. Essa estratégia
evidencia a constante tentativa de Satanás em desenvolver uma falsa teologia,
buscando, em última instância, induzir a humanidade ao erro. A história de Jó
ilustra essa mesma tática.
Na
introdução ao livro de Jó, o Senhor, Deus Onipotente, apresenta Jó como um
homem justo. Ao ouvir esse testemunho divino, Satanás objeta, argumentando que
a devoção de Jó é motivada pelas bênçãos recebidas. Ele afirma que Jó serve,
adora e segue a Deus apenas por causa da prosperidade concedida. Satanás sugere
que, se Deus retirar essas dádivas e permitir o sofrimento, Jó O abandonará,
rejeitará e blasfemará contra Ele, pois sua fé seria condicionada à utilidade
das bênçãos divinas.
A premissa
subjacente a essa perspectiva, que se qualifica como "satânica", é a
tentativa de persuadir Deus de que a devoção de Jó não era sincera, mas sim que
a relação era invertida, com Deus a serviço de Jó. Essa noção representa a
gênese de uma teologia distorcida, frequentemente propagada em nossos púlpitos,
onde líderes e pregadores contemporâneos podem apresentar um Deus utilitarista,
que existe para servir, em vez de um Deus a ser servido. Embora
superficialmente possa parecer uma ideia inócua, suas raízes são profundamente
perniciosas.
No século XXI,
observa-se um fenômeno em que multidões são atraídas a práticas religiosas,
frequentemente sob o pretexto de promessas de prosperidade material e
satisfação de desejos terrenos. Essa abordagem, muitas vezes associada a certas
vertentes religiosas, oferece benefícios pessoais e atrativos que apelam aos
instintos humanos, como conforto, sucesso, felicidade e bens materiais.
Essa
modalidade religiosa, frequentemente apresentada sob a roupagem de ensinamentos
religiosos, concentra-se na oferta de "mercadorias" em troca de fé,
desviando o foco da busca por redenção e transformação espiritual. Em vez de
uma busca genuína por arrependimento e reconciliação com Deus, impulsionada
pela consciência da condição humana, a motivação principal parece residir na
expectativa de recompensas terrenas.
Essa
tendência, que atrai grande número de pessoas, contrasta com os princípios
fundamentais da igreja cristã primitiva. O foco na prosperidade e nos
benefícios pessoais, em detrimento da busca por uma vida de acordo com os
ensinamentos bíblicos, pode distorcer a verdadeira natureza da fé e da
espiritualidade.
Com sua
característica de acusador, Satanás apresenta a Deus uma justificativa,
semelhante à que já foi exposta. Seu argumento é que Jó servia a Deus
unicamente por causa dos benefícios que recebia. Havia inúmeras vantagens em
servir a Deus, como prosperidade material, bem-estar emocional e uma vida de
felicidade. Satanás propõe que, caso esses benefícios fossem retirados, Jó
abandonaria sua fé. Essa é a essência da acusação de Satanás, dirigida a Deus e
também contra Jó.
Podemos
aprofundar a análise da questão que envolve a relação de Satanás com Deus. É
possível inferir que, na perspectiva de Satanás, o que realmente importava não
era Deus, o provedor, mas aquilo que se recebia de Deus. Em outras palavras, os
benefícios eram considerados mais importantes do que o próprio benfeitor.
Assim, Satanás acusou Jó de valorizar mais os benefícios recebidos, as bênçãos
concedidas, do que a Deus, a fonte dessas bênçãos e benefícios.
Desejo, de
fato, investigar as razões pelas quais tantas pessoas professam, atualmente,
seguir a um "Senhor". A qual divindade se referem? Ao Deus bíblico,
considerado o Senhor Supremo? Ou estariam, porventura, sendo iludidas por uma
falsa representação divina, frequentemente veiculada em algumas igrejas contemporâneas
e por líderes com práticas pragmáticas? Estes últimos, motivados por ambições
pessoais, almejam construir um movimento religioso que lhes permita projetar
sua imagem e receber adoração, além de usufruir de recursos financeiros
consideráveis, obtidos por meio da comercialização da fé em determinados
contextos religiosos.
O sistema
religioso em questão, embora sofisticado em sua apresentação, tornou-se
amplamente popular na atualidade. A facilidade com que se espalhou é notável, o
que levou, décadas atrás, críticos da religião a observar a fragmentação
acelerada do movimento neopentecostal e pentecostal. Esses críticos, ao
analisar as pequenas igrejas fundadas por indivíduos sem formação teológica ou
critérios rigorosos, rotularam-nas como "pequenas igrejas, grandes
negócios".
Essa
tendência já havia sido prefigurada por Pedro, em sua segunda carta, no
capítulo 2, a partir do versículo 1: "E também houve entre o povo falsos
profetas, como entre vós haverá falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente,
heresias destruidoras, até ao ponto de negarem o Senhor que os resgatou,
trazendo sobre si mesmos repentina destruição. E muitos seguirão as suas
práticas libertinas, e, por causa deles, o caminho da verdade será difamado;
também, movidos pela ganância, farão comércio com vocês, usando palavras
fingidas. A condenação deles desde há muito tempo não tarda, e a sua destruição
não dormita".
A passagem
ilustra uma religião comercializada, uma doutrina adaptada para atrair fiéis.
Milhares de pessoas buscam um deus que as sirva, em vez de servir a Deus,
refletindo a tendência humana de priorizar os interesses pessoais. Essa era a
questão central: o diabo questionou Deus, sugerindo que a devoção de Jó era
motivada pelos benefícios recebidos.
Conheço
pessoalmente muitos indivíduos que se decepcionaram com esse tipo de prática
religiosa. Buscaram igrejas motivados pela promessa de cura mediante votos,
milagres e bênçãos materiais. No entanto, a desilusão veio à tona quando as
promessas não se concretizaram. A frustração resultante levou essas pessoas a
se afastarem da fé, acusando o Deus da Bíblia de ser um mentiroso. Percebe-se,
assim, que o próprio diabo utiliza falsos profetas para confundir as pessoas,
pregando um deus ilusório, o qual, após a decepção, leva os indivíduos a
acreditarem que foram enganados pelo Deus supremo.
Ao enganar
essas pessoas, levando-as a uma desilusão religiosa sem que possam discernir o
engano de uma divindade falsa, fabricada em suas crenças com o único propósito
de exploração, esses indivíduos acabam por imputar a Deus, conforme revelado
nas Escrituras, a prática da decepção, do erro e da mentira. Em outras
palavras, como Pedro adverte em 2 Pedro, capítulo 2, versículos 1 a 3, falsos
mestres, movidos pela avareza, explorarão seus seguidores, e o caminho da
verdade será difamado. Ao atribuir a mentira ao Deus verdadeiro, essas pessoas
incorrem em blasfêmia. Conforme João, capítulo 8, versículo 44, declara que o
diabo é o pai da mentira, e agora essas pessoas são levadas a associar a
mentira ao Deus da verdade.
Ao idealizar
uma religião voltada para o lucro e uma divindade que interage com os homens em
termos comerciais, surge um novo tipo de religião, na qual cada pregação e
mensagem se adapta aos anseios do público. De fato, a figura de um deus justo e
rigoroso, que pune o pecado e exige honra, adoração e serviço incondicional,
contrasta com a teologia utilitarista que prevalece atualmente, notadamente em
muitas denominações evangélicas. Lamentavelmente, essa tendência se estabeleceu
e tende a se agravar, como parte de uma apostasia predita, conforme registrado
pelos apóstolos.
A filosofia
religiosa utilitarista que prevalece atualmente, adotada como uma filosofia
prática para impulsionar o pragmatismo, tem se esforçado para deturpar a
verdadeira mensagem do Evangelho e a imagem de Deus apresentada nas Escrituras.
É imperativo que os fiéis examinem se seus pastores, líderes e suas igrejas
estão, de fato, pregando o Deus revelado nas Sagradas Escrituras. Aquele Deus
que é simultaneamente misericordioso e justo, soberano e transcendente à
vontade humana. Ao ensinar sobre a oração do Pai Nosso, Jesus enfatizou:
"Seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu." Isso implica
que a vontade divina deve prevalecer sobre a nossa.
Contudo, a
realidade contemporânea demonstra a proeminência de uma representação de Deus
disposta a "negociar" através de uma religião comercial, na qual
votos e promessas condicionam a doação financeira ou a adesão a líderes
religiosos em troca de bênçãos, saúde, curas, proteção e prosperidade. Essa
doutrina, embora pareça nova, é, na verdade, uma reedição de uma estratégia
antiga. O livro de Jó, considerado por muitos estudiosos como o primeiro livro
da Bíblia, ilustra essa realidade. A filosofia do diabo, ao acusar Jó de servir
a Deus por interesse, distorceu o caráter divino e a retidão de Jó. Essa
teologia satânica nunca desapareceu; apenas foi adaptada, revestida de roupagem
cristã e disseminada pelo mundo. Essa "religião utilitarista" é uma
abominação, e dela devemos nos afastar. À medida que o tempo passa,
lamentavelmente, um número crescente de igrejas se desvia da pregação do Deus
verdadeiro, cedendo a essa crença e teologia maligna.
No capítulo
4, versículo 8 da Epístola aos Gálatas, Paulo recorda que, antes de conhecerem
a Deus, os cristãos da Galácia serviam a deuses que, em sua essência, não eram
divinos, ou seja, não representavam o Deus verdadeiro. Da mesma forma, a
adoração a um deus utilitarista, que não possui soberania, onipotência, onipresença
e onisciência, e que não ocupa o lugar da Suprema Majestade, mas sim se submete
às ordens do homem, de seus sacerdotes e líderes religiosos – que se arrogam a
autoridade de "ordenar", "profetizar" e
"determinar" como se fossem superiores à própria divindade –,
constitui uma grave blasfêmia. O homem jamais pode controlar o Deus verdadeiro,
pois Ele transcende a vontade e as ordens humanas.
Um deus que
pode ser manipulado, comprado ou cuja bênção pode ser negociada não é o Deus
verdadeiro. Trata-se de um erro teológico, uma divindade falsa que,
infelizmente, muitos apresentam e aceitam. Uma grande quantidade de pessoas se
sente atraída por essa figura, pois ela não impõe desafios, mas apenas oferece
benefícios que podem ser adquiridos ou creditados aos seus seguidores.
Esse deus
utilitarista não é o Deus revelado nas Escrituras, nem é o Deus pregado pelos
verdadeiros cristãos. Que estas palavras sirvam de alerta a todos nós.
Textos bíblicos que revelam a majestade, soberania
e autoridade do Verdadeiro Deus das Escrituras:
Efesios 1:11, Romanos 8:28, Mateus 10:29 a 31
Colossenses 1:16 a 17, Isaias 45: 7 a 9, provérbios 16:33, Jó 42:2, Lamentações
3:37 a 39, Atos 4:27 a 28, Efésios 1:4 etc.
Sugestão de leitura:
Deus é Soberano – A. W. Pink