terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A SABEDORIA DE DEUS E A LIBERDADE DE JONAS.

 



 

C. J. Jacinto

 

 

Em Jonas, capítulo 1, versículo 3, encontrei, ao longo de muitos anos, um ponto de reflexão. A meditação não se limitou a este versículo, mas se estendeu a todo o livro, que tem sido para mim uma fonte de profunda análise sobre a vontade divina, os decretos de Deus e a vontade humana. Neste texto, observamos um conflito, um embate de vontades.

 Na passagem mencionada, lemos que Jonas se levantou para fugir da presença do Senhor, dirigindo-se a Társis. Descendo a Jope, encontrou um navio que se destinava a Társis. Pagou a passagem e embarcou, com o intuito de ir com os demais tripulantes para Társis, distante da presença do Senhor.

 O Deus Altíssimo e Soberano convocou Jonas. A este, foi incumbida a pregação do arrependimento em Nínive, por ordem divina, em cumprimento da vontade de Deus. O Senhor, comunicando-se com Jonas, filho de Amitai, proferiu uma ordem expressa, emanada diretamente do trono celestial: "Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive e clama contra ela, pois a sua maldade subiu até mim." Contudo, após ouvir a determinação do Deus Todo-Poderoso, soberano sobre todo o universo, Jonas tomou uma decisão contrária. Levantou-se e optou por seguir em direção oposta à vontade divina. A princípio, a inclinação de Jonas pareceu conduzi-lo em sentido diverso. Diante da ordem, ele decidiu, por livre arbítrio, embarcar em um navio com destino a Társis. Observa-se, portanto, a clara oposição da vontade de Jonas à instrução recebida.
Deus permitiu, nesse contexto, a manifestação de Sua vontade permissiva, concedendo a Jonas a liberdade de escolha. Jonas, em uma atitude definida, optou por não atender à vontade divina. Assim, agindo por sua própria decisão, contrariou o desígnio de Deus. Apesar de Sua soberania e autoridade suprema, Deus permitiu essa escolha, e Jonas, por ela, arcou com as conseqüências.
 Essa postura divina, que permite ao homem tomar suas próprias decisões, é uma expressão da liberdade que Deus lhe concede. No livro de Jonas, observamos esse princípio em ação. Jonas, em vez de cumprir a ordem divina, dirigiu-se a Társis. Houve, portanto, um intervalo entre o chamado e a resposta de Jonas, durante o qual Deus permitiu que ele exercesse sua liberdade de escolha. As decisões tomadas por Jonas, que Deus permitiu, o levaram a enfrentar as consequências de seus atos.

 Diante da decisão de Jonas de ir para Társis, em desacordo com a ordem divina, Deus, embora possuísse o poder de intervir imediatamente, optou por permitir que Jonas seguisse sua própria vontade. Mesmo sendo a autoridade suprema e detentor do domínio sobre todas as coisas, inclusive sobre seus profetas, Deus permitiu que Jonas se afastasse, aparentemente, de Sua presença. Essa postura divina, que observa e permite, nos oferece profundas reflexões sobre a relação entre a vontade de Deus e a vontade humana. Compreendemos, então, que Deus, em determinado período, concedeu a Jonas a liberdade de agir, permitindo que suas escolhas direcionassem seu destino. A intervenção divina, nesse contexto, foi adiada, demonstrando o respeito de Deus pela autonomia de Jonas.


 Deus, em sua onipotência, poderia ter ordenado que Jonas se dirigisse a Nínive sem permitir qualquer objeção. Contudo, Deus permitiu que Jonas exercesse sua liberdade de escolha. Observa-se que, na experiência humana, a liberdade, ou a permissão divina para agir livremente, frequentemente leva o homem, em razão de sua natureza pecaminosa, a desviar-se do caminho correto e a opor-se à vontade de Deus. Contudo, na narrativa de Jonas, desde o momento em que ele tenta fugir de seu chamado até a iminência do naufrágio, percebemos a intervenção divina por meio da tempestade, visando conduzir Jonas de volta ao seu propósito original. Durante esse período, Deus permitiu que Jonas agisse de acordo com sua própria vontade.
A narrativa de Jonas nos oferece valiosas lições. Deus, em sua soberania e em conformidade com sua santa vontade, justiça e misericórdia, permite que o homem exerça seu livre-arbítrio. Essa concessão evidencia a incapacidade inerente ao ser humano de, por si só, discernir e escolher o caminho que agrada a Deus. A tendência natural do homem é desviar-se da vontade divina, como ilustrado na história de Jonas.

 Não é necessário que Deus determine as más ações do homem; estas emanam da própria natureza pecaminosa humana. O homem, em sua condição caída, segue esse curso desde que lhe é concedido à liberdade de agir. Mais cedo ou mais tarde, ele se afasta e age em desacordo com a vontade de Deus. Essa é uma lição que devemos continuamente internalizar. Deus concede ao homem certa autonomia, mas este, em sua fragilidade, não consegue, por seus próprios meios, trilhar o caminho da justiça e da vontade divina. Ao conceder a Jonas a liberdade de escolha, este optou por um curso de ação contrário à vontade de Deus, guiado por seus próprios desejos. Além disso, Paulo indica que Deus entrega uma sociedade para que siga livre em suas impiedades, caso o grau de rebelião seja avançado, Deus abandona totalmente a pratica de impiedade(Romanos 1:18 a 32). Não há nessas circunstancias nenhum decreto divino, anunciadas por Paulo em Romanos 1, mas conseqüências que irão resultar de uma depravação que se constitui o âmago de todas as perversões produzidas por uma sociedade que caiu na desgraça do abandono divino.

 Em seu texto notável, desejo repetir de forma didática, em Romanos, capítulo 1, versículos 18 a 32, Paulo aborda essa questão com muita clareza. No versículo 26 do primeiro capítulo de Romanos, Paulo declara que Deus os entregou a paixões infames. No versículo 28, lemos que, porquanto desprezaram o conhecimento de Deus, Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem o que não convém. Percebe-se, portanto, que Deus, de certa forma, entrega o homem às suas próprias inclinações e consequências.

 Ora, todo homem é pecador. A Bíblia afirma que não há nenhum justo, nem um sequer. Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus. Dessa forma, quando o homem recebe de Deus uma medida de liberdade para fazer suas escolhas, ele frequentemente optará pelas coisas erradas e, por fim, será responsável por essas escolhas.
 A parábola do filho pródigo, narrada em Lucas 15:11-32, ilustra uma verdade fundamental. O filho mais novo, ao exercer sua liberdade, toma uma decisão pessoal e voluntária que ignora a vontade de seu pai. Ele escolhe partir, trilhando um caminho adverso que o conduz a graves consequências, afastando-se progressivamente. Essa jornada culmina em uma situação trágica e de profunda escuridão espiritual.

 À medida que se distancia, sua condição se agrava. Contudo, em determinado momento, ele se conscientiza de sua situação, provavelmente sob a influência do Espírito Santo, O Espirito Santo não induz ninguém a apostasia, ele induz a o regresso a ortodoxia, não o contrario! Em sua situação de extrema miséria, o pródigo é movido pela misericórdia divina. Reconhecendo o estado lastimável em que se encontra, decide retornar. Na sua decisão de se apostatar, a luz espiritual se apaga, mas no seu retorno aos princípios, é Deus quem acende a luz espiritual na consciência.

 Essa narrativa espelha a trajetória do homem, que, ao receber a dádiva da liberdade, muitas vezes se afasta do Senhor, trilhando um caminho de trevas e alienação.

Não se pode inferir que Deus esteja impedido de determinar algo sobre indivíduos ou sociedades. Ao contrário, reconheço a capacidade divina de fazê-lo. Meu objetivo, com base nas Escrituras, é ressaltar que Deus também concede ao homem certo grau de liberdade para que ele exerça sua vontade. Observa-se, no entanto, que, em geral, o homem tende a utilizar essa liberdade de maneira contrária à vontade de Deus. Contudo, essa liberdade, outorgada por Deus, será fundamental no julgamento final, quando todos comparecerão perante o trono divino. Deus concede a liberdade, mas a liberdade humana serve como prova no julgamento. Portanto, devemos estar vigilantes e buscar sempre cumprir a vontade de Deus.

Em Colossenses 1:9 Paulo ora para que os cristãos de Colossos sejam cheios do conhecimento da vontade de Deus, o contexto ensina que essa é a via pelo qual se estabelece um relacionamento correto com Deus, unicamente através do exercício da fé cristã. A vida secular e religiosa do homem adâmico será sempre deficiente, é uma liberdade restrita cuja direção induz para “Társis”, para fora da vontade de Deus. Só a luz do Evangelho brilhando sobre este “porão escuro” é capaz de despertar o homem pecador para o resgate que Cristo pode fazer.

 Dado que Deus é total e absolutamente soberano, Ele pode, por sua própria vontade, conceder a quem desejar uma medida de liberdade e capacidade de escolha. Essa capacidade de Deus é evidente, pois Sua soberania absoluta é inegável. A Escritura atesta, de forma inequívoca, essa realidade. Além disso, compreendemos que Deus, em Sua onipotência, tem a capacidade de estabelecer decretos, exercendo domínio sobre o tempo e agindo de acordo com Sua perfeita natureza, não nego isso em hipótese alguma, porém a graça e a misericórdia de um Soberano pode exercer a dádiva da liberdade para quem quer que seja. Por conseguinte, devido à Sua onisciência, onipotência e onipresença, e em Sua benevolência, Deus concede, mesmo aos seres criados, inclusive aqueles que estão em estado de queda, uma certa medida de liberdade para que exerçam suas escolhas dentro dos limites estabelecidos por Ele. Essa verdade é amplamente demonstrada e percebida nas Sagradas Escrituras.

Compreendo plenamente que o homem natural não pode discernir as coisas do Espírito, encontrando-se, portanto, em uma condição precária. Ao referir-se ao homem natural, Paulo alude ao homem adâmico, afetado pela Queda. Em Efésios, capítulo 2, a partir do versículo 2, lemos sobre como, outrora, o homem andava segundo o curso deste mundo, sob o domínio do príncipe da potestade do ar, o espírito que agora atua nos filhos da desobediência. Portanto, o homem adâmico não desfruta de liberdade total, só os filhos de Deus podem desfrutar de uma verdadeira liberdade; todos são enganados pelo príncipe das potestades do ar. Em certo sentido, o homem não possui livre arbítrio para escolher fazer a vontade de Deus, a menos que Deus lhe conceda entendimento dessa verdade. A ação do Espírito Santo na pregação do Evangelho é, portanto, essencial para que o pecador se arrependa e se converta.

 Que o homem recebe certa medida de liberdade e com isso ele usa para responder sua visão de vida e razão, não há duvida! Que Deus pode abandonar e deixar que uma sociedade pecadora siga livremente o curso de suas paixões carnais é um fato bíblico! A maior parte dos homens responderá por seus atos, justamente porque foi lhes mostrado o caminho da vontade de Deus, mas eles resolveram seguir o caminho da própria vontade. O juízo justo de um Deus Santo, Soberano e Perfeito cairá sobre homens pecadores que tomaram escolhas erradas.


 A proclamação do Evangelho frequentemente se apresenta como a ferramenta espiritual essencial para a abertura dos olhos e do entendimento, obscurecidos pela influência do "deus deste século" e pelo condicionamento imposto aos pecadores. Essa abertura é crucial para que o indivíduo responda positivamente ao Evangelho, quando sua mente e coração se tornam receptivos a essa verdade. Assim, a pregação e a proclamação do Evangelho são instrumentos vitais, possibilitando que o homem receba a iluminação necessária para discernir sua condição espiritual. Reforço, com base em passagens bíblicas, que Deus concede ao homem uma medida de liberdade para fazer suas próprias escolhas. Dessa forma, no Juízo Final, o homem será responsabilizado por essa liberdade que lhe foi concedida. Considero essa liberdade, em maior ou menor grau, uma grande dádiva divina, um reflexo da misericórdia de Deus para com o ser humano pecador, sujeito ao engano espiritual, conforme descrito em Efésios 2. Portanto, a liberdade que Deus concede ao homem é, de fato, uma bênção extraordinária, um testemunho da misericórdia divina.

 A narrativa de Jonas nos oferece uma valiosa lição. Deus, em sua infinita sabedoria, concede a Jonas a liberdade de escolha. Reconhecendo a soberania divina, observamos que Deus permite a Jonas tomar suas próprias decisões. Essa liberdade, limitada em sua duração, é, em certo sentido, condicional, pois a intervenção divina é inevitável. Deus age na vida de Jonas, enviando uma tempestade que o leva a reconsiderar suas ações e a buscar a vontade divina. Apesar disso, essa experiência inicial representa uma liberdade concedida por Deus a Jonas. Até certo ponto, Jonas desfruta dessa liberdade, mesmo que suas escolhas e decisões o conduzam por caminhos equivocados. Essa tendência humana a cometer erros, como evidenciado na história de Jonas, é parte da condição humana. Contudo, a intervenção divina tem o propósito de redirecionar a vontade de Jonas. Através dessa experiência, Jonas é levado a compreender a importância da soberania de Deus sobre a vida de todos os seres humanos. Mais incrível ainda é ver como Deus administra essa rebelião do profeta, pois na sua suprema soberania, o texto revela que Deus tem completo controle sobre a criação, enviando a tempestade, o grande peixe e induzindo os acontecimentos num processo tal que ali naquela tragédia de experiência profunda, o profeta engolido pelo grande peixe vai representar a gloriosa ressurreição de Cristo depois de consumar a obra redentora na morte na cruz.

 A liberdade de Jonas, como desejo enfatizar, embora limitada, foi genuína. Jonas vivenciou essa liberdade. Considero a narrativa de Jonas como um relato autêntico em todos os aspectos. Ela se insere na experiência humana e é registrada no texto sagrado como um paradigma de liberdade, algo que todos nós, em diferentes medidas, experimentamos. Acredito firmemente que, em virtude disso, somos responsáveis por nossas ações e escolhas. Especialmente em nosso tempo, quando as Escrituras Sagradas, com seu cânon completo e fechado, nos oferecem todas as orientações necessárias para viver uma vida orientada pela vontade divina e não pela nossa própria. (Salmo 119:105)




Vamos relembrar os fatos hisóricos, Deus interveio, enviando uma grande tempestade, e o curso dos eventos começou a mudar. Jonas foi lançado ao mar, e então um grande peixe o engoliu. Jonas perdeu completamente sua liberdade, sua capacidade de escolha. Encontrava-se agora no ventre do peixe, e ali, pela primeira vez, vemos Jonas orando. Quando oramos em nossa escuridão provocada pela desobediência, uma luz espiritual se acende em nosso espírito. Nos primeiros versículos do livro de Jonas, ao receber o chamado divino para pregar em Nínive, talvez em seu íntimo ele pudesse expressar o desejo: "Seja feita a minha vontade e não a vontade de Deus". Deus, porém, concedeu a Jonas a liberdade de prosseguir, abraçando seu destino, sua vida, como se fosse supostamente o senhor de sua própria história. Um equivoco a ser corrigido.  Contudo, agora, confinado no ventre do grande peixe, sua oração poderia ter se transformado em uma lâmpada para a cosnciencia. Ele poderia simplesmente estar dizendo: "Seja feita a tua vontade e não a minha". Essa mudança faria toda a diferença na vida de Jonas. Agora, a vontade de Deus deveria ser cumprida, e Jonas estava decidido a isso. Ao chegar à praia, Jonas tomou o caminho de Nínive, abandonando a ideia de Társis. Não se tratava de perda de liberdade, mas sim de uma experiência da verdadeira liberdade, pois a liberdade humana está atrelada ao propósito para o qual Deus existe. Deus projetou a existência de Jonas para ser um profeta, alguém que caminhasse na vontade de Deus, e não fora dela. Nesse sentido, podemos compreender as profundas escolhas presentes neste pequeno livro, onde a vida de Jonas é retratada dentro e fora da direção divina.


Da mesma forma, Deus age em nossas vidas. Sua permissão em relação às nossas escolhas é um ato de misericórdia, embora a liberdade que nos concede nos responsabilize. Portanto, necessitamos da luz divina, da orientação constante da voz de Deus. Afirmo a cada um de vocês que a Bíblia, como um livro concebido para perpetuar a palavra de Deus, apresenta verdades atemporais e extraordinárias. É uma sabedoria singular, pois Deus consegue comunicar-se com pessoas de todas as culturas e línguas através de um livro sagrado, por meio do qual Sua voz pode ser incessantemente propagada. Desejo que, por intermédio de pregadores que se baseiam nas Escrituras e são fiéis ao chamado, como Jonas, após o processo de aprendizado decorrente de suas escolhas, possamos ouvir essa voz divina e estarmos sempre atentos a Deus, frequentemente sem questionar Sua direção. Deus nos conduzirá, com certeza, ao caminho correto, apesar dos desafios e obstáculos. Ele sempre nos concederá a graça e o auxílio necessários para trilharmos a estrada da vontade divina, na qual nossa existência encontrará significado, respostas e nos encaminhará ao propósito para o qual fomos criados.




Embora Deus permita que muitos se desviem por meio de suas ações e decisões, é imprescindível reiterar minha inabalável crença na soberania e majestade do Senhor, Deus Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra, e na de nosso Senhor Jesus Cristo, bem como na supremacia do Espírito Santo sobre nossas vidas.



Deus, em sua infinita sabedoria, concede a cada indivíduo a capacidade de fazer escolhas que moldam sua existência. Ele não interfere nessas escolhas, a menos que estejam alinhadas com Seus propósitos. Entretanto, como ensina a epístola aos Romanos, por vezes Deus permite que sigamos nossos próprios caminhos. Aqueles que, em sua obstinação, persistem em seus desejos e se tornam escravos de suas próprias inclinações, podem ser entregues a si mesmos.

Quando um indivíduo trilha o caminho da ilusão, guiado por uma visão distorcida da realidade, as conseqüências em longo prazo podem ser severas.

 Que possamos, humildemente, dobrar nossos joelhos e, diariamente, declarar: "Senhor, eis-me aqui, peregrino nesta Terra. Desejo caminhar sob Tua luz, ilumine meus passos e me conceda a sabedoria para escolher a Tua vontade, e não a minha. Amém."

 

 

 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

ANÁTEMA: QUANDO A PERVERSÃO DO EVANGELHO ENGANA MULTIDÕES.

ANÁTEMA: QUANDO A PERVERSÃO DO EVANGELHO ENGANA MULTIDÕES.

 


 

Em Gálatas, capítulo 1, versículos 8 e 9, o apóstolo Paulo adverte sobre a possibilidade da pregação e existência de um evangelho diferente daquele que ele pregou. No texto bíblico, observa-se que Paulo expressa sua advertência com vigor e veemência, utilizando um tom solene de alerta máximo. Ele declara: "Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos pregue outro evangelho além do que já vos pregamos, seja anátema". No versículo seguinte, Paulo reitera essa declaração com igual intensidade, enfatizando a seriedade da advertência sobre a pregação de um evangelho falso.

 Considerando a crise enfrentada pelas igrejas da Galácia, notadamente um forte desvio de caráter doutrinário de grande magnitude, o apóstolo Paulo expõe a gravidade da situação, considerando a pregação de outro evangelho como algo a ser rejeitado e combatido. Qual era a natureza dessa apostasia? Indivíduos procuravam integrar a lei mosaica ao evangelho. Estes, conhecidos como judaizantes, cristãos de origem judaica, infiltraram-se nas comunidades cristas  da Galácia, disseminando a idéia de que a fé em Cristo, embora necessária, não era suficiente.

A problemática residia na negação da obra consumada e perfeita de Cristo na cruz, assim como da salvação unicamente pela graça, em detrimento das obras. Este desafio, a ser enfrentado pelo apóstolo Paulo ao escrever às igrejas da Galácia, não se restringiu à época da Reforma Protestante, como alguns poderiam supor. O contexto da epístola aos Gálatas demonstra que essa realidade já se manifestava, demandando a correção por meio da carta escrita às igrejas da Galácia. A negação da justificação pela fé   através da obra consumada e perfeita e perfeita de Cristo na cruz estava sendo negada.  Eles caíram da graça!

 Alguns indivíduos, adeptos de práticas judaicas, infiltraram-se nas comunidades cristãs, defendendo a necessidade de observar elementos da antiga aliança para alcançar a salvação. Eles disseminavam a idéia de que a circuncisão era obrigatória para os gentios convertidos, além de exigir a rigorosa observância da Torá e o cumprimento dos rituais cerimoniais prescritos no Antigo Testamento. Em essência, negavam a suficiência da obra redentora de Jesus Cristo na cruz.

 Estes indivíduos demonstravam uma compreensão deficiente da distinção fundamental entre o Antigo e o Novo Testamento, entre a antiga e a nova aliança. Contudo, o Evangelho estabelece essa clara diferenciação. Conforme registrado em João 1:17, "A lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo." Essa passagem demarca uma linha divisória. Aqueles que não discernem adequadamente essa divisão, confundindo lei e graça, correm o risco de incorrer em um sincretismo religioso e de repetir os erros da Igreja da Galácia.

 Observe a precisão das palavras de Paulo. Em Gálatas, capítulo 1, versículo 7, Paulo acusa, ou seja, denuncia, a perversão desses judaizantes legalistas. Ele identifica essa mistura, esse desvio, como uma deturpação. No original, o termo significa distorcer, inverter o sentido de algo que é verdadeiro, isto é, do Evangelho genuíno. Não se trata de uma mensagem completamente diferente, mas de uma adulteração sutil, cujas consequências Paulo, no contexto da epístola, apresenta como graves, pois considera o resultado final dessa adulteração do Evangelho como uma condenação, um anátema.

  Em outras epístolas, como em Romanos e Efésios, Paulo enfatiza a salvação pela graça. Em Efésios, capítulo 2, versículo 8, ele declara que a salvação é  graça é concedida por meio da fé. O outro evangelho que Paulo ataca e denuncia em Gálatas, contudo, inclui as obras humanas como condição para a justificação e a salvação, adicionando algo ao Evangelho da Graça. Em Gálatas, Paulo combate contra a ideia  de que somos justificados pela fé e, adicionalmente, pelas obras. Paulo denuncia essa doutrina como um "outro evangelho", praticada pelos judaizantes e que contaminou os galatas. Estes ensinavam que a fé em Cristo é necessária, mas a salvação também depende das obras como complemento à obra de Jesus Cristo na cruz. Essa era a mensagem dos judaizantes, e os gálatas estavam sucumbindo a essa doutrina. Essa queda, semelhante à queda no Jardim do Éden, que foi uma queda para a desobediência, é, em Gálatas, uma queda para um evangelho diferente. Ambas as quedas acarretam consequências trágicas para os homens. Ao defender que os cristãos convertidos deveriam ser circuncidados e observar as leis e cerimônias do Antigo Testamento, esses falsos mestres ensinavam que a obra de Cristo era incompleta e que a graça de Deus não era suficiente para a justificação. Argumentavam que a redenção proporcionada pelo sacrifício de Jesus Cristo na cruz do Calvário não era plena, tornando necessária a contribuição humana através da observância da lei. Essa postura negava o princípio da justificação pela fé, conforme revelado nas Escrituras, especialmente no livro de Romanos Assim, promoviam uma doutrina que exigia a combinação da fé em Cristo com as obras da lei, com o objetivo de anular a separação entre a antiga e a nova aliança, conforme estabelecido em João 1:17. Consequentemente, defendiam que a salvação dependia da circuncisão e da observância das leis e cerimônias do Antigo Testamento, além da fé em Jesus Cristo.
Ao analisar os capítulos 3 e 4 da Epístola aos Gálatas, percebemos que o apóstolo critica severamente os legalistas, acusando-os de retornar às ordenanças mosaicas. Essa postura representa um retrocesso, uma renúncia à liberdade espiritual proporcionada por Cristo através do Evangelho, em favor de uma nova forma de escravidão. A leitura atenta desses capítulos revela a profunda preocupação de Paulo com a gravidade de se acrescentar obras como requisitos para a salvação, como se a salvação dependesse da observância da lei. Somos salvos pelo que Cristo fez na cruz e nao pelas obras feitas por homens Essa ênfase nas obras, naquilo que o indivíduo deve fazer, implica em considerar a obra de Cristo incompleta, tornando a salvação um mérito compartilhado entre Cristo e os pecadores. Trata-se de um erro grave que devemos evitar.

 A compreensão do Evangelho revela que, em Cristo, há uma nova criação. É crucial, portanto, examinar como Paulo, em suas epístolas, aborda a questão central da regeneração. A palavra "regeneração" está intrinsecamente ligada aos ensinamentos de Cristo sobre o novo nascimento. Em 2 Coríntios, capítulo 5, versículo 17, Paulo declara que, se alguém está em Cristo, é nova criatura. A graça, assim, conduz à experiência da regeneração. Como resultado da justificação pela fé, aquele que crê em Cristo renasce pelo poder do Espírito Santo. Essa é a regeneração. 

 

A compreensão do Evangelho revela que, em Cristo, há uma nova criação. É crucial, portanto, examinar como Paulo, em suas epístolas, aborda a questão central da regeneração. A palavra "regeneração" está intrinsecamente ligada aos ensinamentos de Cristo sobre o novo nascimento. Em 2 Coríntios, capítulo 5, versículo 17, Paulo declara que, se alguém está em Cristo, é nova criatura. A graça, assim, conduz à experiência da regeneração. Como resultado da justificação pela fé, aquele que crê em Cristo renasce pelo poder do Espírito Santo. Essa é a regeneração.
 Em Efésios, capítulo 4, versículo 24, Paulo descreve as características dessa nova criatura: ela é criada em verdadeira justiça e santidade. Surge, então, a confusão gerada por certos judaizantes que argumentam que a graça sem a lei conduz à libertinagem, enquanto a lei com a graça leva à obediência. Essa perspectiva é totalmente equivocada, pois Paulo enfatiza que a nova criatura, aquela que está em Cristo e que é regenerada, é uma criação divina, moldada em verdadeira justiça e santidade debaixo da graça somente. A função da lei é revelar o quanto o homem precisa da graça, a condenação da lei revela o quanto precisamos de Cristo e do Evangelho. A natureza renovada do homem, santo e regenerado, é inerentemente inclinada a cumprir a vontade de Deus e ter comunhão com Ele. A dinâmica da salvação não reside na capacidade de cumprir a lei ou pratica de boas obras e observação de cerimônias, mas de crer em Cristo como único e suficiente Salvador (Atos 4:24). Crendo no Evangelho o homem pecador é regenerado e a inclinação do novo homem, criado em verdadeira justiça e santidade, é de realizar a vontade de Deus, guiado e orientado pelo Espírito Santo. Pois aquele que não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo.

 Romanos, capítulo 8 proclama a profundidade dessa realidade espiritual do homem regenerado, que é conduzido pelo Espírito Santo e possui o Espírito de Cristo. Assim, não são os preceitos da lei, mas a presença e o testemunho do Espírito Santo na vida do homem regenerado que o direcionam pelos caminhos da santidade. E assim chegamos numa plenitude de abundancia espiritual: o Fruto do Espírito (Gálatas 5:24).

 Portanto, a análise revela que os princípios teológicos ensinados e defendidos por Paulo estão sendo transgredidos e ignorados pelos gálatas. O apóstolo Paulo fundamenta a rejeição, com a adoção a outro evangelho, e faz a denuncia com vigor, demonstrando zelo e compromisso com a mensagem da cruz e  a centralidade da salvação pela graça e a justificação pela fé como base do verdadeiro Evangelho. A salvação não depende de obras humanas, conforme ele enfatiza em Gálatas 2:16. Igualmente crucial é a compreensão da cruz como evento escatológico decisivo, através do qual Cristo inaugurou a nova criação. Tentar mistura o suor fedorento do homem adâmico ao sangue precioso e divino de Cristo como complemento necessário para a conquista da salvação é um anátema! O retorno à lei, portanto, implica em negar esse fato. A unidade do evangelho em Cristo, conforme exposto em Gálatas 3:28, pode ser quebrada com a adição de elementos de religião que caducou adicionados ao Evangelho revelado no Novo Testamento, essas adições são perigosas, corrompem o Evangelho, pervertem a mensagem, as adições e o sincretismo fazem isso. Observações de dias, a crença na regeneração batismal, imposições legalistas, a superstição de que dar o dizimo, pregar que essas coisas são necessárias para a salvação é corromper o Evangelho. Os que pregam e defendem isso comprometem a integridade do Evangelho. Desse modo, extraímos uma aplicação espiritual que nos instrui e nos põe em estado de alerta: Qualquer sistema que promova a salvação por fé e obras, fé e rituais sacramentais obrigatórios, observações de dias e outras observâncias legalistas, supersticiosas incorre em grave erro, sendo veementemente condenado por Paulo. (Por favor leia atentamente todo o Capitulo 3 da Segunda Carta de Paulo ao Corintios, capitulo 3 para discernir espiritualmente a superioridade da Nova Aliança sobre a Antiga, sugiro também que o leitor faça uma leitura cuidadosa e profunda do livro de Hebreus) Em suma, entendo que a lei não contém em si, a provisão divina para o perdão dos pecados, nem a lei, nem ordenanças religiosas, nem cerimônias, nem sacramentos, essa é uma providencia absolutamente divina e é oferecida aos homens por intermédio de Cristo somente.  Fora de Cristo não há salvação e Cristo através de Sua Obra Redentora na cruz oferece tudo o que o homem precisa para se salvar.

É essencial, portanto, compreender que o Evangelho nos conduz à liberdade espiritual e a uma experiência singular na revelação progressiva das Escrituras. Devemos distinguir entre o jugo pesado da lei e o jugo suave de Cristo, entre o ministério da morte da lei e a vida abundante de Cristo. Mas contudo jamais devemos perder a direção que nos aponta a graça salvadora de Deus, pois ela nos ensina, e não obriga, que o cristão bíblico deve  renunciar à impiedade e às concupiscências mundanas para viver no presente século com discernimento espiritual (Leia Tito 2:11 a 15)


O Evangelho autêntico, central na fé cristã bíblica, apresenta Jesus Cristo como o único e suficiente meio para a salvação. Sua obra foi perfeita e completa, totalmente suficiente e eficiente. O cristão que se guia pelas Escrituras deposita sua fé na obra consumada e perfeita de Jesus Cristo na cruz do Calvário, realizada de uma vez por todas. A salvação não depende de acréscimos, obras, cerimônias ou leis, mas exclusivamente da obra redentora de Cristo. A justificação pela fé somente é, portanto, uma doutrina fundamental e amplamente presente no pensamento teológico de Paulo e em todo o Novo Testamento.
 É imprescindível compreender essa verdade de forma clara, pois qualquer acréscimo ao Evangelho constitui um erro grave. Em Gálatas 5:1, Paulo exorta os crentes a permanecerem firmes na liberdade que Cristo lhes concedeu. Esse é o apelo pastoral que ressoa nas severas advertências de Paulo aos crentes da Igreja da Galácia que caíram na armadilha de abraçar outro evangelho. Infelizmente, muitas igrejas, pregadores, pastores e até mesmo religiões que se autodenominam cristãs incorrem no erro que Paulo condenou em Gálatas: a adição de obras, leis ou práticas cerimoniais judaicas à salvação, como condições necessárias.
 Este é um erro gravíssimo, exposto por Paulo em sua epístola aos Gálatas. Dada a sua seriedade, devemos estar atentos e evitar a propagação, defesa ou vivência de um "outro evangelho", pois tal prática conduzirá à frustração e a decepção espiritual. Firmemo-nos, portanto, no Evangelho da graça de Deus.

 

 

Pr  C. J. Jacinto

 

 

 

 

A Identificação do Salvo Com a Cruz e Com a Ressurreição de Cristo

 

A Identificação do Salvo Com a Cruz e Com a Ressurreição de Cristo

 


C. J. Jacinto

 

No livro de Gálatas, capítulo 2, versículo 14, encontra-se uma declaração de Paulo que merece profunda reflexão. Nesse trecho, ele afirma que, percebendo a conduta inadequada em relação à verdade do Evangelho, agiu com firmeza. Essa declaração de Paulo, inserida em um contexto que aborda a distinção entre o Evangelho genuíno e outras propostas, enfatiza a proclamação da cruz e a justificação pela fé como elementos centrais do verdadeiro Evangelho. Paulo destaca, ainda, o poder transformador da graça divina na regeneração de cada indivíduo que ouve e responde ao Evangelho. Observa-se que um princípio fundamental no discurso paulino na Epístola aos Gálatas reside na sua própria autoapresentação, estabelecendo-se como alicerce da genuína experiência da regeneração. Essa experiência, que envolve a comunhão com Cristo e a identificação com Ele, não se apresenta de maneira superficialmente atrativa aos ouvidos de judeus e gregos. Paulo enfatiza, primordialmente, a experiência da crucificação e, em outras epístolas, também a experiência de ser sepultado com Cristo. Algo praticamente distante da filosofia grega e da pratica da vida religiosa judaica.  Paulo declara em Gálatas capítulo dois versículo vinte: “já estou crucificado com Cristo e vivo não mais eu mas Cristo vive em mim e a vida que agora vivo na carne vivo pela fé do filho de Deus o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim”. A noção de morrer com Cristo é proeminente nas epístolas de Paulo e reflete sua vivência espiritual. Integrante da jornada espiritual de Paulo, a experiência de morrer com Cristo se manifesta não apenas na morte, mas também no sepultamento com Ele. Essa compreensão é evidente em Gálatas 2:20, e também em Gálatas 5:24, Gálatas 6:14, Romanos 6:8 e Colossenses 2:20, com a menção ao sepultamento com Cristo também. Encontramos essa ideia em Romanos 6:4 e Colossenses 2:12. A experiência de Paulo, ao trilhar o caminho da cruz, permite-lhe vivenciar as glórias do Evangelho e desfrutar da esperança da vida eterna. Não se engane, essa também deve ser a experiência de cada cristão bíblico.

 Ao proferir esta declaração de fé significativa, Paulo se aprofunda em uma íntima relação com nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Contudo, sua jornada espiritual não se inicia com a ressurreição, nem com a identificação com a ressurreição de Jesus. Ele se identifica primeiramente com a crucificação e, subseqüentemente, com o sepultamento. Somente através desse processo ele pode vivenciar a plenitude que se manifesta nas declarações de fé, consideradas essenciais e que representam o ápice da teologia paulina, conforme exposto na profundidade experiencial e gloriosa do capítulo 8 de Romanos.

 A passagem de Gálatas 2:20 permanece fundamental na compreensão da experiência cristã. Assim como Paulo, somos chamados a compartilhar da crucificação de Cristo, nossa identificação com a morte de Cristo é o caminho da nosa identificação na Sua ressurreição. Somente então Cristo viverá em nós, e não mais nós mesmos. A vida que agora vivemos na carne, vivemos pela fé no Filho de Deus, que nos amou e se entregou por nós. Essa é uma experiência profunda e espiritual, inerente à jornada cristã. O crente autêntico é marcado pelas características de Cristo em sua própria vida, de modo que o viver seja Cristo. Essa transformação deve ser a característica distintiva, o testemunho de nossa fé. Em Paulo, observamos não apenas uma teologia cristocêntrica, mas também uma experiência de vida centrada em Cristo de forma permanente, isso é o que significa exercitar-se em piedade. A vida de Cristo, Sua obra e a vivência em comunhão com Ele são temas recorrentes em todas as suas epístolas, permeando toda a sua reflexão teológica. Essa teologia paulina atinge, inclusive, um ponto culminante. Em Efésios, capítulo 1, versículo 10, percebemos que a totalidade da experiência espiritual encontra sua razão de ser em Cristo. Para Paulo, existe um único caminho, e ele o percorre integralmente. Esse não é um caminho simplista; é um caminho de identificação com Cristo, não apenas com o Cristo ressuscitado, mas também com a cruz, instrumento de Sua morte. A cruz, que ceifou a vida de Jesus, é a mesma que deve extinguir o ego, o orgulho e a arrogância, não só na vida de Paulo, mas também na vida de cada cristão. Só a cruz nos leva para dentro daquele movimento cósmico que na economia divina, nos leva para uma plenitude atemporal que se processa e terá uma culminância em Cristo.

 Não fomos chamados para viver sob a lei, mas para morrer para ela. Essa é a questão central, a dinâmica fundamental do Evangelho e da Carta aos Gálatas: nossa existência deve ser orientada por Cristo, e não pela lei. Na cruz, recebemos uma nova identidade, uma nova vida espiritual a ser desfrutada e vivida. Essa vida implica no processo da crucificação e do sepultamento. Experimentamos, então, a presença de Cristo ressurreto, a fim de vivermos para Ele, e não para a lei, pois Cristo, através de sua vida redentora, cumpriu a lei por nós. Nossa justificação, portanto, é alcançada pela obediência e morte de Cristo na cruz do Calvário.  Freqüentemente, a abordagem comum sobre a obra de Jesus Cristo na cruz enfatiza, de maneira proeminente, sua morte sacrificial, Cristo é nosso substituto penal, mas Ele também é o substituto de cada cristão no que tange o cumprimento da lei, Cristo cumpriu totalmente a lei e a identificação nossa com o cumpridor da lei que é o Senhor, garante que o processo da justificação seja completo, garantido e perfeito. Contudo, o apóstolo Paulo apresenta uma perspectiva mais abrangente. A cruz de Cristo não se limita à sua morte, essencial para a redenção da humanidade. Ela também exerce um impacto transformador sobre nós, sobre a nossa existência. Aquela mesma cruz que crucificou Cristo deve moldar a nossa identidade. "Fui crucificado com Cristo". Caso essa experiência espiritual não seja vivenciada, a autenticidade da nossa regeneração e conversão pode ser questionada. Portanto, é crucial compreender nossa identificação com a morte de Cristo na cruz, conforme Paulo expõe em Gálatas 2:20.
 Perceba que todo este processo representa uma profunda transformação espiritual. No livro de Romanos, capítulo 6, versículo 4, o apóstolo Paulo também faz uma declaração relevante a este tema: "Para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós andemos em novidade de vida". Essa experiência de morte assemelha-se à semente que, lançada à terra, morre para germinar. Da mesma forma, na vida cristã, aquele que passa pelo processo de regeneração mergulha na morte de Cristo na cruz, estabelecendo uma identificação com Ele. Desse processo emerge uma nova vida, um novo nascimento, de modo que a pessoa é transformada por Cristo, através da redenção. Contudo, essa redenção não opera sem a morte. Foi necessário que Cristo morresse por todos os nossos pecados. O autor de Hebreus afirma que, sem derramamento de sangue, não há remissão de pecados. Assim, a vida espiritual que provém do Espírito Santo, por meio do novo nascimento, só é possível mediante esse processo de morte e identificação com a cruz e com a morte de Cristo. Paulo compreendeu plenamente a dinâmica dessa redenção, expressando-a em sua declaração: "Estou crucificado com Cristo; já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim". O amado leitor também pode professar esta fé hoje. Infelizmente, a mensagem da cruz nem sempre é popular, e a experiência de Paulo raramente é vivenciada pelos cristãos. Na verdade, pouco se aborda este assunto nos púlpitos contemporâneos. Contudo, aqui reside a essência, a raiz espiritual da qual emerge toda a árvore teológica da redenção, da salvação e da vida eterna.

 

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