Levar Todo o Entendimento Cativo a Cristo
Base bíblica: 2 Coríntios
10:4-5
O mundo interior: um território que Deus quer habitar
Deus
criou o homem à sua imagem, e por isso existe em nós um mundo interior —
um espaço de consciência que alguns chamam de "psique". Esse termo, a
meu ver, descreve apenas um mecanismo da alma; mas todos sabemos que esse mundo
existe de fato: um espaço com dimensões espirituais próprias, onde está a sede
do nosso entendimento.
Nesse
território interno vivemos múltiplas experiências: pensamos, imaginamos,
compreendemos. A imaginação não conhece limites, e a liberdade de pensar em
segredo pode nos levar até as fronteiras do inimaginável. Há quem diga que todo
homem carrega um mundo secreto dentro de si — e não há dúvida de que essa
observação é verdadeira: cada um de nós nutre sentimentos, desejos e ilusões
que só nós mesmos conhecemos.
Por
isso, tenho buscado deixar que o Espírito do Senhor ilumine todo esse espaço
interno — minha imaginação e meu entendimento. Não desejo viver uma vida
secreta, escondendo desejos pecaminosos ou sonhos ilícitos. Ainda assim, é
preciso reconhecer que certa privacidade é legítima e até necessária: há
sentimentos e circunstâncias da vida espiritual que devem ser guardados. É
lógico e razoável mantermos privacidade em diversas áreas da vida — desde que
isso seja conduzido pelo padrão da prudência, do respeito e da santidade.
Quando o pensamento se torna perigoso
O
mundo do pensamento é amplo — e perigoso, quando não está sob controle. Deus
atribui grande importância às ações do pensamento: desejar no coração
uma mulher de forma ilícita já é adultério; odiar já é, aos olhos de Deus,
homicídio. Não existem leis humanas capazes de condenar um pensamento, mas a
Palavra é clara: Deus também julga aquilo que pensamos.
As
Escrituras registram o testemunho mais contundente sobre isso na geração do
dilúvio: "E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicava sobre a
terra e que toda a imaginação dos pensamentos do seu coração era só má
continuamente" (Gênesis 6:5).
O que significa "levar cativo todo o entendimento"
Diante
disso, faz todo sentido seguirmos o conselho de Paulo: levar todo o
entendimento cativo a Cristo. Mas o que isso significa, na prática?
Precisamos
entender, primeiro, que a mente é um campo de batalha — um verdadeiro depósito
de convicções e ideias. Ela pode se tornar uma fortaleza contra a verdade
e contra os princípios do evangelho, gerando dureza e resistência no coração
humano.
Levar
o entendimento cativo a Cristo é compreender e aceitar os fatos a respeito da
obra de Cristo na cruz. É colocar a mente e o coração sob o controle dos
ensinos de Cristo — enxergar e pensar a partir da perspectiva divina. Isso é relacionamento
por meio do entendimento: o mundo do pensamento passa a girar em torno dos
valores eternos do evangelho.
Nossos
desejos, sentimentos e todo o nosso homem interior devem estar sob a influência
completa dos ensinos e da pessoa do Salvador — isso é, na prática, viver
Romanos 8. E, uma vez que o entendimento esteja cativo a Cristo, o passo
seguinte é a obediência, pois o texto é claro: "Levando cativo todo
entendimento à obediência a Cristo" (2 Coríntios 10:5).
A meta: ter a mente de Cristo
Nossa
meta é ter a mente de Cristo. Para que isso aconteça, precisamos levar o
entendimento a Ele, deixando que os valores do evangelho nos dominem por
dentro.
Duas posturas diante do evangelho: resistência ou entrega
O
mundo resiste à mensagem da cruz; ele recusa reconhecer o senhorio de Cristo.
Mas, para um coração redimido, essas fortalezas mentais e espirituais deixam de
existir. Esse coração vai até a Videira e desenvolve um relacionamento interior
com o Mestre e Salvador. Sua mente, seu coração e seu entendimento estão atados
ao evangelho e à mensagem da graça; todo o seu ser passa a estar sob o domínio
e o amparo do Senhor Jesus Cristo.
A
vida do pensamento é a vida de Cristo. O entendimento é iluminado pela glória
do evangelho, e esse homem passa a ter o coração voltado para as coisas mais
elevadas. Todos os que ressuscitaram com Cristo olham para o alto, para o trono
sublime; buscam e pensam nas coisas celestiais, porque pensamento e
entendimento estão voltados para o Senhor. De certa forma, o homem salvo está
ligado, preso à videira, como um ramo da própria videira — é assim que devemos
compreender essa verdade.
O homem mundano resiste a Cristo; o homem redimido se entrega a Cristo.
Fortalecendo o entendimento no dia a dia
O
entendimento espiritual é dado por Cristo, e, uma vez que o recebemos, também
recebemos discernimento (1 João 5:20). Na vida cristã, somos chamados a cingir
os lombos do nosso entendimento (1 Pedro 1:13) — ou seja, a nos prepararmos
ativamente, com disciplina, para pensar de acordo com a verdade.
Nosso
homem interior precisa ser fortalecido com convicções firmes e com um
pensamento santificado. Só assim conseguiremos não ser levados por todo vento
de doutrina, nem viver segundo os padrões rasos de um entendimento pautado na
sabedoria deste mundo — que é terrena, animal e diabólica (Tiago 3:15).
Como
escreveu Paulo: "Não vos movais facilmente do vosso entendimento, nem vos
perturbeis" (2 Tessalonicenses 2:2).
Em resumo: uma disciplina diária
Levar
todo o entendimento cativo a Cristo não é um exercício abstrato de
espiritualidade — é uma disciplina diária: vigiar o que alimentamos na
mente, submeter cada pensamento ao crivo do evangelho e deixar que os valores
eternos de Cristo, e não os padrões deste mundo, moldem a forma como enxergamos
a nós mesmos, aos outros e a vida.
Clavio J. Jacinto
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