quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A Identificação do Salvo Com a Cruz e Com a Ressurreição de Cristo

 

A Identificação do Salvo Com a Cruz e Com a Ressurreição de Cristo

 


C. J. Jacinto

 

No livro de Gálatas, capítulo 2, versículo 14, encontra-se uma declaração de Paulo que merece profunda reflexão. Nesse trecho, ele afirma que, percebendo a conduta inadequada em relação à verdade do Evangelho, agiu com firmeza. Essa declaração de Paulo, inserida em um contexto que aborda a distinção entre o Evangelho genuíno e outras propostas, enfatiza a proclamação da cruz e a justificação pela fé como elementos centrais do verdadeiro Evangelho. Paulo destaca, ainda, o poder transformador da graça divina na regeneração de cada indivíduo que ouve e responde ao Evangelho. Observa-se que um princípio fundamental no discurso paulino na Epístola aos Gálatas reside na sua própria autoapresentação, estabelecendo-se como alicerce da genuína experiência da regeneração. Essa experiência, que envolve a comunhão com Cristo e a identificação com Ele, não se apresenta de maneira superficialmente atrativa aos ouvidos de judeus e gregos. Paulo enfatiza, primordialmente, a experiência da crucificação e, em outras epístolas, também a experiência de ser sepultado com Cristo. Algo praticamente distante da filosofia grega e da pratica da vida religiosa judaica.  Paulo declara em Gálatas capítulo dois versículo vinte: “já estou crucificado com Cristo e vivo não mais eu mas Cristo vive em mim e a vida que agora vivo na carne vivo pela fé do filho de Deus o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim”. A noção de morrer com Cristo é proeminente nas epístolas de Paulo e reflete sua vivência espiritual. Integrante da jornada espiritual de Paulo, a experiência de morrer com Cristo se manifesta não apenas na morte, mas também no sepultamento com Ele. Essa compreensão é evidente em Gálatas 2:20, e também em Gálatas 5:24, Gálatas 6:14, Romanos 6:8 e Colossenses 2:20, com a menção ao sepultamento com Cristo também. Encontramos essa ideia em Romanos 6:4 e Colossenses 2:12. A experiência de Paulo, ao trilhar o caminho da cruz, permite-lhe vivenciar as glórias do Evangelho e desfrutar da esperança da vida eterna. Não se engane, essa também deve ser a experiência de cada cristão bíblico.

 Ao proferir esta declaração de fé significativa, Paulo se aprofunda em uma íntima relação com nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Contudo, sua jornada espiritual não se inicia com a ressurreição, nem com a identificação com a ressurreição de Jesus. Ele se identifica primeiramente com a crucificação e, subseqüentemente, com o sepultamento. Somente através desse processo ele pode vivenciar a plenitude que se manifesta nas declarações de fé, consideradas essenciais e que representam o ápice da teologia paulina, conforme exposto na profundidade experiencial e gloriosa do capítulo 8 de Romanos.

 A passagem de Gálatas 2:20 permanece fundamental na compreensão da experiência cristã. Assim como Paulo, somos chamados a compartilhar da crucificação de Cristo, nossa identificação com a morte de Cristo é o caminho da nosa identificação na Sua ressurreição. Somente então Cristo viverá em nós, e não mais nós mesmos. A vida que agora vivemos na carne, vivemos pela fé no Filho de Deus, que nos amou e se entregou por nós. Essa é uma experiência profunda e espiritual, inerente à jornada cristã. O crente autêntico é marcado pelas características de Cristo em sua própria vida, de modo que o viver seja Cristo. Essa transformação deve ser a característica distintiva, o testemunho de nossa fé. Em Paulo, observamos não apenas uma teologia cristocêntrica, mas também uma experiência de vida centrada em Cristo de forma permanente, isso é o que significa exercitar-se em piedade. A vida de Cristo, Sua obra e a vivência em comunhão com Ele são temas recorrentes em todas as suas epístolas, permeando toda a sua reflexão teológica. Essa teologia paulina atinge, inclusive, um ponto culminante. Em Efésios, capítulo 1, versículo 10, percebemos que a totalidade da experiência espiritual encontra sua razão de ser em Cristo. Para Paulo, existe um único caminho, e ele o percorre integralmente. Esse não é um caminho simplista; é um caminho de identificação com Cristo, não apenas com o Cristo ressuscitado, mas também com a cruz, instrumento de Sua morte. A cruz, que ceifou a vida de Jesus, é a mesma que deve extinguir o ego, o orgulho e a arrogância, não só na vida de Paulo, mas também na vida de cada cristão. Só a cruz nos leva para dentro daquele movimento cósmico que na economia divina, nos leva para uma plenitude atemporal que se processa e terá uma culminância em Cristo.

 Não fomos chamados para viver sob a lei, mas para morrer para ela. Essa é a questão central, a dinâmica fundamental do Evangelho e da Carta aos Gálatas: nossa existência deve ser orientada por Cristo, e não pela lei. Na cruz, recebemos uma nova identidade, uma nova vida espiritual a ser desfrutada e vivida. Essa vida implica no processo da crucificação e do sepultamento. Experimentamos, então, a presença de Cristo ressurreto, a fim de vivermos para Ele, e não para a lei, pois Cristo, através de sua vida redentora, cumpriu a lei por nós. Nossa justificação, portanto, é alcançada pela obediência e morte de Cristo na cruz do Calvário.  Freqüentemente, a abordagem comum sobre a obra de Jesus Cristo na cruz enfatiza, de maneira proeminente, sua morte sacrificial, Cristo é nosso substituto penal, mas Ele também é o substituto de cada cristão no que tange o cumprimento da lei, Cristo cumpriu totalmente a lei e a identificação nossa com o cumpridor da lei que é o Senhor, garante que o processo da justificação seja completo, garantido e perfeito. Contudo, o apóstolo Paulo apresenta uma perspectiva mais abrangente. A cruz de Cristo não se limita à sua morte, essencial para a redenção da humanidade. Ela também exerce um impacto transformador sobre nós, sobre a nossa existência. Aquela mesma cruz que crucificou Cristo deve moldar a nossa identidade. "Fui crucificado com Cristo". Caso essa experiência espiritual não seja vivenciada, a autenticidade da nossa regeneração e conversão pode ser questionada. Portanto, é crucial compreender nossa identificação com a morte de Cristo na cruz, conforme Paulo expõe em Gálatas 2:20.
 Perceba que todo este processo representa uma profunda transformação espiritual. No livro de Romanos, capítulo 6, versículo 4, o apóstolo Paulo também faz uma declaração relevante a este tema: "Para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós andemos em novidade de vida". Essa experiência de morte assemelha-se à semente que, lançada à terra, morre para germinar. Da mesma forma, na vida cristã, aquele que passa pelo processo de regeneração mergulha na morte de Cristo na cruz, estabelecendo uma identificação com Ele. Desse processo emerge uma nova vida, um novo nascimento, de modo que a pessoa é transformada por Cristo, através da redenção. Contudo, essa redenção não opera sem a morte. Foi necessário que Cristo morresse por todos os nossos pecados. O autor de Hebreus afirma que, sem derramamento de sangue, não há remissão de pecados. Assim, a vida espiritual que provém do Espírito Santo, por meio do novo nascimento, só é possível mediante esse processo de morte e identificação com a cruz e com a morte de Cristo. Paulo compreendeu plenamente a dinâmica dessa redenção, expressando-a em sua declaração: "Estou crucificado com Cristo; já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim". O amado leitor também pode professar esta fé hoje. Infelizmente, a mensagem da cruz nem sempre é popular, e a experiência de Paulo raramente é vivenciada pelos cristãos. Na verdade, pouco se aborda este assunto nos púlpitos contemporâneos. Contudo, aqui reside a essência, a raiz espiritual da qual emerge toda a árvore teológica da redenção, da salvação e da vida eterna.

 

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