COMO CRESCER NA GRAÇA E NO CONHECIMENTO
C. J. Jacinto
As Escrituras, inspiradas pelo
Espírito Santo, determinam de maneira imperativa que cresçamos em graça e
conhecimento, conforme lemos em 2 Pedro 3:18. Entretanto, há outra passagem de
igual relevância para a compreensão deste tema. Em Hebreus 5:14, ao abordar o
ensino teologicamente sólido e doutrinariamente sadio, o autor sagrado descreve
a doutrina bíblica como alimento sólido, destinado aos que, pela prática, têm
as faculdades exercitadas para discernir tanto o bem quanto o mal. Esse texto
estabelece claramente que o pleno desenvolvimento de nossas faculdades
intelectuais e espirituais é fundamental para a busca por um entendimento
bíblico aprofundado. Deus nos dotou de intelecto e capacidade cognitiva para a
percepção da realidade. Sob a orientação do Espírito Santo e mediante a
Palavra, devemos buscar o discernimento necessário para adentrar o campo da sã
doutrina e da teologia sólida, a fim de alcançarmos uma compreensão límpida do
Evangelho, do caráter divino e das verdades fundamentais das Escrituras. Com
esse propósito, apresento princípios norteadores para o desenvolvimento da
nossa capacidade intelectual, assegurando que o nosso entendimento e
conhecimento sejam plenamente consagrados à glória de Deus e à expansão do Seu
Reino. Ao adentrarmos o âmbito sagrado do estudo das realidades espirituais,
devemos compreender que tal empreendimento é digno de nossa mais profunda
reverência e piedade. É o desejo do Senhor que nossos corações estejam
preparados em oração, a fim de que possamos apreender com clareza os
ensinamentos das Escrituras. A busca pelo conhecimento espiritual se concretiza
de duas maneiras distintas: primeiramente, por meio de uma comunhão íntima e
contínua com o texto bíblico, cultivando familiaridade com seus preceitos; em
segundo lugar, pelo acesso às obras de autores piedosos, que se dedicaram ao
rigor teológico com igual nível de consagração. Dentre os estudiosos, os mais
proveitosos são aqueles que lograram unir a erudição acadêmica à santa piedade.
A preparação espiritual é um exercício de natureza estritamente pessoal; por
isso, o incentivo à vida de oração e à consagração é fundamental antes de
trilharmos o precioso caminho do conhecimento espiritual. O verdadeiro saber
teológico é, em sua essência, espiritual, sendo inadmissível qualquer distinção
entre ambas as esferas. Toda teologia autêntica, alicerçada na Bíblia e
alinhada à sã doutrina, possui caráter espiritual, uma vez que suas raízes
estão fundamentadas na pessoa do Espírito Santo. Consequentemente, para que
qualquer doutrina ou teologia seja considerada verdadeira, ela deve ser,
obrigatoriamente, fundamentada nas Escrituras.
A abordagem racional para determinar a veracidade de uma afirmação consiste em
avaliar criteriosamente as evidências e os argumentos, tanto favoráveis quanto
contrários, estabelecendo o nível de confiança com base no peso dessas
considerações. De fato, não há outro método logicamente sólido para aferir a
validade de uma proposição. Embora a inspiração espiritual e o testemunho de
fontes confiáveis exerçam um papel relevante na formação de nossas convicções,
tais fatores devem complementar, e não substituir, a análise racional das
afirmações. À luz da doutrina bíblica e teológica, a verdade encontra seu
fundamento na correta exegese das Escrituras, a qual exige um rigor analítico
criterioso. Este é o parâmetro estabelecido para alcançarmos um padrão elevado
de discernimento. Somos biblicamente instruídos a buscar a sabedoria e a
verdade, examinando os assuntos sob uma perspectiva racional e fundamentada.
Conforme nos ensina o capítulo 8 do livro de Provérbios, tal prática constitui
um padrão determinado pelo próprio Espírito Santo desde a antiguidade. Um dos
desafios mais significativos ao estudarmos as Sagradas Escrituras é a
dificuldade de manter a concentração. Disciplinar a mente para que se mantenha
focada durante a análise e a pesquisa do texto sagrado exige um esforço
considerável. Para extrair as riquezas espirituais e absorver profundamente o
conhecimento contido na Palavra, é indispensável cultivar um amor genuíno e uma
paixão profunda pelo objeto de estudo. Portanto, o desenvolvimento da
concentração é o ponto de partida essencial; somente por meio de um apreço
verdadeiro pelo saber é que alcançaremos a disciplina necessária para que o
estudo se torne uma experiência transformadora. Isso remete ao ensinamento de
nosso Mestre, Senhor e Salvador, Jesus Cristo, que, em Lucas 12:34, afirma que
onde estiver o nosso tesouro, ali estará também o nosso coração. Portanto,
quando a Bíblia Sagrada for, de fato, o nosso maior tesouro, o nosso coração
estará profunda e atentamente voltado às suas páginas. Após o exercício de
imersão no estudo das Escrituras e de obras teológicas de referência, é imperativo
adotar uma postura introspectiva, realizando uma análise íntima e reflexiva que
examine, com profundidade e rigor, como as verdades apreendidas ressoam em
nossa própria experiência pessoal.
Alguns denominam essa prática como meditação; contudo, prefiro o termo
"meditação introspectiva". Tal qual um animal que rumina seu
alimento, o cristão, para desenvolver suas faculdades espirituais e
intelectuais e consagrar o seu entendimento ao Senhor e à Sua Palavra, deve
adotar uma postura introspectiva e meditativa. Nessa prática, ele preserva o
ensino recebido em seu coração, tornando-o o objeto constante de sua atenção em
momentos oportunos. Dessa forma, em vez de nos dispersarmos devido à falta de
foco, devemos cultivar a contemplação, mantendo nossa mente plenamente
concentrada no objeto de nosso estudo e análise.
Apresentaremos dois exemplos de indivíduos
que, embora possuam conhecimento direto da Palavra de Deus, negligenciam sua
aplicação na prática cotidiana. O primeiro caso é o de Eva, registrado em
Gênesis 3. No capítulo anterior, versículo 17, o Senhor instruiu Adão sobre
quais frutos lhe eram permitidos consumir no jardim, proibindo-o expressamente
de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, sob a advertência de que a
desobediência acarretaria a morte. Contudo, em Gênesis 3, observamos a serpente
lançar um ataque direto à autoridade divina, ao negar as consequências
anunciadas por Deus. Ao induzir Eva a acreditar que o consumo do fruto não
resultaria em punição, o tentador sugeriu que Deus teria mentido, colocando em
dúvida a veracidade da Palavra. Além disso, a serpente instigou outro erro ao
prometer que, mediante a desobediência, eles seriam como Deus. Nesse episódio,
percebemos uma clara distorção da verdade por parte de alguém que detinha o
conhecimento da ordem estabelecida. Portanto, tanto Adão — que recebeu a
instrução diretamente de Deus — quanto Eva — que foi informada por Adão —,
possuíam o conhecimento de fatos teológicos verídicos, mas, ainda assim,
optaram pelo erro e pela desobediência à Palavra do Senhor. Outro exemplo que
podemos citar é o de Saul. Embora tenha recebido instruções explícitas, ele não
as observou como deveria. Presumiu ser adequado poupar o melhor dos animais
para o sacrifício, conforme relatado em 1 Samuel 15:15. Contudo, o Senhor
desaprovou tal atitude. Em 1 Samuel 15:10-11, lemos: Então veio a palavra do
Senhor a Samuel, dizendo: Arrependo-me de haver constituído a Saul rei,
porquanto deixou de me seguir e não executou as minhas palavras. Saul ouviu
claramente a vontade de Deus, compreendeu-a perfeitamente, mas optou por
ignorá-la. Essa escolha o conduziu ao erro e à apostasia, mesmo possuindo o
conhecimento da verdade. A verdade deve ser amada e abraçada, independentemente
do custo, pois esse é o preço da fidelidade. Ter conhecimento do Senhor e de
Sua Palavra exige de nós a disposição para a obediência e a submissão. Caso
contrário, o conhecimento que adquirimos torna-se desprovido de valor.
Por fim, buscar verdades teológicas requer um coração consagrado e disposto a
aprofundar-se e mergulhar na Palavra de Deus, tratando-a com respeito e grande
temor ao manusear as coisas sagradas. De modo que devemos estar atentos a estes
princípios que apresentei aqui. Este não é um manual exaustivo para o
aprendizado da teologia sólida e da boa doutrina; todavia, os princípios aqui
apresentados são fundamentais para que possamos crescer na graça e no
conhecimento. Este é um caminho muitas vezes árido, que requer tempo,
disciplina e disposição, e não é para todos. Todavia, se dentro do seu coração
existe um amor ardente pela Palavra de Deus e uma sede de adquirir mais
conhecimento espiritual, ter uma vida cristã mais profunda e alcançar um
conhecimento teológico mais avançado, estes princípios são de valor
incalculável para que possa mergulhar na Palavra de Deus com segurança e obter
os seus mais preciosos tesouros.
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