A PROVIDENCIA SANTA DE DEUS SOBRE OS REDIMIDOS
C. J. Jacinto
Uma reflexão acerca de Romanos
8:28: "E sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam
a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito." Este oráculo,
contido no oitavo capítulo da grandiosa epístola de Paulo aos Romanos,
constitui um profundo consolo. O versículo tem servido como uma fonte de
consolo do mártir em seus momentos de angústia, como cajado para sustentar as
mãos debilitadas do peregrino e como escudo para proteger o peito daqueles que,
na peleja espiritual, enfrentam o intenso calor da batalha.
O apóstolo Paulo inicia sua profunda consolação com uma nota de absoluta
certeza, a partir da qual podemos contemplar e compreender a sua declaração.
Ele não recorre a suposições, conjecturas ou ambiguidades; não há espaço para
possibilidades incertas ou meras expectativas. A gramática da fé, ao tratar do
caráter de Deus, não admite o modo subjuntivo, preferindo o indicativo: a
linguagem do conhecimento. Trata-se de uma convicção fundamentada em uma
percepção intuitiva e absoluta, uma verdade que transcende a nossa experiência
e os nossos sentimentos, alicerçada em uma fé inabalável. Paulo afirma:
"Sabemos".
Todavia, é imperativo que façamos uma pausa para um exame interior. Acaso
possuímos, de fato, tal certeza? Será esta uma verdade autoevidente à natureza
humana? Se consultarmos os registros da experiência humana, se indagarmos à
carne e ao sangue, a resposta será um inequívoco não. Quando a tempestade
investe contra o lar, quando o raio fere o cedro, quando a embarcação é naufragada
pelas ondas e o mundo parece ruir, pode o coração natural proclamar que tudo
isso contribui para o seu bem? Longe disso; o coração terreno, tal como Jacó
outrora, exclama: "Todas estas coisas são contra mim". O olhar do
sentido humano percebe apenas a perda, a dor, a tragédia, o sofrimento e a
desventura. Contudo, o cristão que deposita sua confiança no Senhor transcende
essa visão limitada.
O conhecimento de Paulo repousa sobre um fundamento inabalável: o caráter de
Deus. Como aqueles que amam ao Senhor, compreendemos a Sua natureza e as Suas
promessas. Reconhecemos que Ele é o Pai Todo-Poderoso e onipotente, cuja
sabedoria é infinita e cujo amor é imutável. Pela Sua onisciência, Deus detém o
pleno conhecimento do que é melhor para nós; Ele é o soberano regente de nossa
existência e de nosso destino. Confiantes no Seu amor incondicional e no Seu
controle absoluto sobre todas as coisas, compreendemos que a Sua onipotência
atua em nosso favor. Sendo Ele capaz de efetuar o que é mais excelente para
cada um de nós, temos a convicção de que os resultados de Sua providência
conduzem, inevitavelmente, ao supremo bem. A expressão "aqueles que são
chamados segundo o seu propósito" refere-se aos redimidos, adquiridos pelo
sangue do Redentor. A arquitetura deste versículo nos oferece a garantia de uma
perspectiva divina que transcende o tempo presente, estendendo-se à eternidade.
Trata-se de uma visão celestial, de plenitude e convergência. Deus estabeleceu
um desígnio soberano para cada um dos que chamou, propósito este que a própria
redenção ratifica. Conforme o capítulo 1, versículo 10, da Epístola aos
Efésios, caminhamos em direção à plenitude dos tempos, rumo à visão beatífica
na qual todas as promessas do Senhor serão consumadas, alcançando o ápice de
nossa existência. O coração de Deus e o exercício de Sua vontade repousam sobre
aqueles a quem Ele ama; por conseguinte, aquele que ama a Deus deve manter o
seu coração inteiramente voltado às Suas promessas. O texto em análise funciona
como uma janela que se abre, permitindo-nos contemplar a soberania de Deus e a
magnitude de Seu propósito sobre as nossas vidas.
A identificação daqueles que amam a Deus, conforme apresentada em Romanos 8:28,
refere-se aos redimidos, aos que atenderam ao chamado do Evangelho. Este
versículo estabelece uma doutrina fundamental: a responsabilidade humana. Somos
instruídos a amar ao Senhor de todo o coração, de toda a alma e de todo o
entendimento. Amar a Deus é uma escolha que nos cabe; é um exercício da nossa
livre vontade. Devemos, portanto, tomar uma decisão radical que esteja em
consonância com o propósito estabelecido pela soberania divina. Embora Deus
inicie, planeje e chame, cabe a nós responder. Essa resposta deve ser profunda
e deliberada, para que possamos experimentar o processo dinâmico da atuação de
Deus conforme o propósito que Ele determinou para nossas vidas desde a
eternidade. É imperativo que caminhemos continuamente nessa direção.
Todavia, um aspecto do versículo merece
atenção especial: a afirmação de que todas as coisas cooperam para o bem. Este
é um tema central e sublime, que deve ser objeto de profunda reflexão,
inclusive para o homem impiedoso. A providência divina, operando de maneira
invisível, faz com que todos os eventos concorram para o benefício daqueles que
são chamados. Trata-se de uma verdade magnífica, que requer nossa constante
meditação, visto que diz respeito à nossa própria existência. Em última
análise, a soberania de Deus assegura que todas as circunstâncias cooperem para
o nosso bem, não apenas nesta vida, mas também por toda a eternidade.
Podemos observar essa realidade na trajetória de José do Egito, que, após ser
vendido por seus irmãos e submetido à condição de escravo, enfrentou uma falsa
acusação que o levou ao cárcere. Mesmo cumprindo pena por um crime que não
cometeu, José manteve-se alicerçado nas promessas divinas. Sua fé inabalável
sustentava a convicção de que Deus permanecia no controle e de que todas as
circunstâncias cooperavam para um propósito maior. Essa confiança permitiu que
ele se mantivesse firme, mesmo diante de evidências contrárias. O mesmo se
aplica à experiência de Daniel. Ao ser retirado de sua pátria e levado à
Babilônia, ainda que a situação parecesse desoladora, o agir soberano de Deus
estava presente. Tanto a vida de José quanto a de Daniel revelam que o Senhor
utiliza as aflições como instrumentos para realizar Seus desígnios. Esses
relatos do Antigo Testamento, que transcendem o caráter histórico, evidenciam a
soberania divina sobre todas as circunstâncias. Consequentemente, a promessa
contida em Romanos 8:28 torna-se extraordinária ao analisarmos como grandes
homens de Deus superaram adversidades por meio da presença constante do
Criador. Dessa forma, todas as coisas revestem-se de um significado profundo e
absoluto, carregando um peso significativo de propósito, soberania e domínio
sobre cada fração de segundo, momento e circunstância. O apóstolo não exclui
aspecto algum, incluindo, antes, aflições, provações, adversidades,
perseguições, calamidades, enfermidades, obstáculos e tensões, entre outros
desafios. Na história dos santos, observamos como o Senhor intervém com sua
providência; embora seu processo possa parecer incompreensível em um primeiro
momento, o decorrer do tempo revela como Deus mantinha o controle, cumprindo
seu propósito e glorificando seu nome. Consideremos, agora, a trajetória de
Jonas. Teriam a tempestade e o seu subsequente lançamento ao mar ocorrido por
mero acaso? De modo algum; foi o Senhor quem enviou um forte vento sobre o
oceano, evidenciando Sua soberania. A aparição do grande peixe não foi um
evento fortuito, mas uma providência divina preparada para aquele momento. A
tempestade, o sorteio realizado pelos marinheiros, o grande peixe, a planta, o
verme e o vento oriental — todos esses elementos cooperaram para o bem de
Jonas. A tempestade serviu para despertar o profeta; o sorteio, para
identificá-lo; o peixe, para resgatá-lo; a planta, para confortá-lo; e o verme,
para humilhá-lo. Embora, sob a perspectiva de Jonas, a tempestade representasse
a destruição e o grande peixe, a morte iminente, Deus utilizou tais meios para
cumprir o Seu propósito. Esse desígnio não se restringiu à vida do profeta, mas
estendeu-se aos habitantes de Nínive, alcançando-os com a salvação e
afastando-os de sua profunda rebeldia.
Romanos 8:28 constitui, portanto, nossa
carta magna de esperança, preenchendo o vazio de nossos anseios diante da
glória futura. É imperativo compreender que não somos joguetes do destino nem
vítimas do acaso; repousamos sob a soberana e misericordiosa sabedoria de Deus.
Nesse sentido, entendemos que as aflições, perseguições, privações e as duras
lutas da vida — fatos que, por vezes, parecem contrariar nossas convicções —
nada mais são do que o justo governo divino sobre nossa existência. Devemos
aguardar com confiança, pois, no tempo oportuno, revelado será que os
propósitos de Deus sempre foram pautados pela sabedoria e justiça. Assim,
regozijar-nos-emos ao rememorar as tribulações enfrentadas durante nossa
peregrinação terrena. Tal qual a trajetória de José, desde a casa de Jacó até o
Egito, compreendemos que nenhuma dificuldade esteve fora do controle divino.
Deus tece, minuciosamente, a tapeçaria de seus desígnios, da qual somos fios
condutores; estamos inseridos neste grandioso monumento celestial que culminará
na consumação de todas as coisas.
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